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SWBR entrevista Dionei Ochner
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SWBR entrevista Dionei Ochner

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Dionei Ochner

Com grande influência da música punk, rap e outros estilos alternativos de cunho político, o estilista Dionei Ochner, de Balneário Camboriú, Santa Catarina, começou a andar de skate aos 16 anos e, desde então, voltou seu olhar para o streetwear, observando a influência do designer dentro dessa vertente cultural.

Assim como Shawn Stüssy fez nos anos 80, transferindo seus desenhos personalizados para camisetas, criou a Cafeine – 20 anos depois do surgimento dessa moda – dando início ao seu caminho no streetstyle. Com a infinidade de referências culturais que tinha na época e com a possibilidade de combinações e temas, desenvolveu o projeto da marca. Nesse tempo, surgiram parcerias que continuam até hoje, colaborando com o desenvolvimento da marca, que anos mais tarde viria a mudar de nome e segmento.

A Dion Ochner é praticamente uma extensão disso tudo, pessoas com quem conviveu, músicas das quais escutou e escuta até hoje e artistas (parceiros) que fazem parte da sua construção pessoal e profissional. Há quase dez anos em Curitiba, a marca teve uma crescente e se consolida a cada dia, tanto na expressão de um conceito, como na criação de novos produtos. O SWBR conversou com o Dionei Ochner que compartilhou um pouco do conceito, processo criativo, de sua visão do mercado nacional e dos planos para o futuro da marca.

Quais foram as influências na criação do conceito da marca?

A origem do conceito sempre vai estar ligada ao que eu atribuo como filosofia de vida: mente, espírito e pensamento. A concepção de ideia livre para criar um produto (marca) com qualidade e referências, na qual a ótica e o ponto de vista atendem a uma ideia central, pela qual se expressa uma visão, um sentimento ou uma ideologia.

Partindo desses princípios, a Dion Ochner é uma combinação desses elementos, cujo objetivo é identificar as particularidades acima descritas. Além desses conceitos, sempre me guiei por algumas referências de marcas que, de alguma forma, eu acompanhava o trabalho ou consumia seus produtos, desde o princípio, ainda em Lages Santa Catarina, quando a marca ainda se chamava Cafeine: Alien Workshop, Fuct, Brasa (Curitiba), Drop Dead, Maha e outras marcas de skate da época.

Passado alguns anos e já transitando por várias cidades e acompanhando outras marcas, a evolução veio como algo natural, acontecendo assim a mudança do nome da marca. Isso deu início ao um novo desenvolvimento, com novos critérios de criação e produção, referências e estética para se conceber novos produtos, considerando os aspectos comportamentais de consumo da sociedade contemporânea em relação à moda, como traço marcante da alfaiataria.

Reconhecendo assim o crescimento e a continuação de uma marca de vestuário com design autoral, focada na qualidade e voltada ao consumo consciente, através do sistema produtivo. Algo mais slow fashion! Portanto, a marca tem duas fases muito distintas no que se diz respeito ao conceito, respeitando o tempo e condições de trabalho de quem está envolvido.

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A ideia sempre foi trabalhar com algo artesanal tipo corte e costura?

A oportunidade de ter uma marca de vestuário e trabalhar com algo artesanal é uma forma de abordagem e responsabilidade minha como estilista. Sempre vi uma ligação natural nisso, entre a minha preocupação com a qualidade, originalidade, criatividade imaginativa e diálogo com todo o processo. Dentre todos os conceitos da produção, acredito eu ser o mais caprichoso.

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Jaqueta Worker Preta

Como é o processo de criação de uma peça?

Quem vê o produto final pode não imaginar, mas há um complexo trabalho de criação. Existem algumas etapas e colaboradores envolvidos neste processo que, além de longo, tem que respeitar cada fase e torcer para que tudo corra dentro dos prazos preestabelecidos. Tudo começa com o estilista acompanhado do designer que, a partir de pesquisas intensas, criam um conceito e desenvolvem a tendência de cores, cortes e estampas.

A identidade da marca é um fator importante em todo o processo de criação e, a partir disso, a peça começa a ganhar vida. Já com o tecido devidamente estampado em mãos, os modelistas, que são responsáveis pelo desenvolvimento da peça piloto, são acionados. Durante o processo todo há muita inquietação, erros e acertos, dúvidas e certezas, tudo como forma de aprimoração do produto final.

Daí em diante, são feitos vários testes e ajustes necessários para garantir que a peça tenha um bom caimento e agrade os clientes da marca. O bom processo de criação garante que os produtos desenvolvidos pela marca sejam coerentes com a nossa identidade e garanta o conforto do nosso público-alvo.

Desde seu início a Dion já trabalhava com produtos mais refinados ou isso ocorreu com o tempo?

O refinamento, ao qual vou me referir, tem alguns significados relevantes que fazem a marca buscar este segmento.

No início de qualquer marca, você acredita mais no instinto e não tanto na razão e isso foi meio que o começo das minhas ideias com a arte e o design da marca, meio que o conceito inicial.

Acredito que tem muita coisa que eu fiz que ficou como referência. Até acho natural quando se inicia um projeto bacana, com uma linguagem acessível e de tendência relevante.

Nem só do requinte uma peça é elaborada, pois a marca, hoje em dia, se justifica em apresentar, de maneira inteligente, uma indumentária em que nossos clientes possam adquirir não só qualidade, mas também estilo e compromisso com um alto padrão de confecção, acabamentos e costuras feitos à mão.

Há uma grande preocupação neste tipo de processo, o que proporciona um ganho fundamental para a identidade da marca e que contribui ainda mais para a otimização da vida útil dos nossos produtos.

Roupas e acessórios, muitas vezes, são finos e delicados e, geralmente, requerem cuidados especiais, desde sua criação até a manutenção da peça.

Cuidamos de cada etapa para que todos os processos sejam respeitados, no intuito de aproximar e criar um bom relacionamento entre marca, colaboradores e consumidores. Isso, para mim, é a garantia de conforto e bom gosto em se vestir.

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Existe a preocupação de trabalhar com matérias-primas locais?

Há sim uma preocupação em relação a isso, pois vivemos em uma época em que o desenvolvimento, baseado na sustentabilidade, tornou-se uma questão importante dentro da marca.

Além de fortalecer todos nossos colaboradores, que integram e interagem em uma rede de comércio local, isso representa a troca de trabalho dentro do processo inteiro da criação de uma peça. Com princípios equitativos, criando uma renda para que este tipo de comércio se sustente entre si, garantindo o respeito a cada etapa realizada.

Há alguma resistência das confecções em revender matéria-prima para uma marca alternativa?

Não há resistência quando se paga pela matéria-prima. Se há um bom produto a ser adquirido, paga-se pelo preço. Afinal, prezamos pelo nível de acabamento em que o produto pode nos oferecer.

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Camisa Tigres

Porque não trabalham com coleções?

Existe uma tendência no mundo da moda, em que as marcas optam por se estruturar por meio de coleções, um método do qual a Dion Ochner desistiu de seguir e isso foi um desafio que acabei assumindo dentro da marca.

Hoje, acredito que faz mais sentido me dedicar a um só produto e não a uma coleção, focando na riqueza dos detalhes e agregando valor à peça também. Além disso, não é do meu interesse produzir tanto assim, a cada estação você ter a obrigação de lançar uma coleção, forçando um exagero de temas que muitas vezes não conversam entre si.

Sendo assim, a moda identifica uma necessidade social e comercial, que preza pelo exagero e não pela exclusividade e vida útil de um produto. Já em um produto fabricado usando o processo manual, há sentimento e história, que são agregados ao resultado final da peça.

“Enquanto as grandes marcas (fast fashion) tem como base a produção em massa, na qual as peças são criadas para o consumo rápido e com descarte precoce, a Dion Ochner corre na antítese deste pensamento, usando de uma estratégia focada na qualidade e durabilidade, fator importante que prioriza a matéria-prima local e sua sustentabilidade.”

Quem gosta do estilo minimalista, normalmente foge de tendências e coleções, aquilo que vira moda e que rapidamente enjoa.

As camisas de botão estão super em alta lá fora e já estão sendo dadas como tendência. Marcas de luxo, principalmente a Prada, lançaram camisas “havaiana” com uma pegada mais descolada e corte amplo. O que você acha desses modelos lançados?

A camisa havaiana tornou-se um ícone da moda, uma tendência à vista, incorporada por todas as marcas, grandes ou pequenas, visto o impacto de aceitação da mesma no mercado de vestuário mundial. Cada marca desenvolve seu próprio estilo e todas se inspiram nos mais diversos temas e coleções. Isso se chama de democracia corporativa, um conceito em que todos temos direito e espaço para criação de qualquer produto. Não há oposição da Dion Ochner neste sentido.

Na sua opinião por que aqui no Brasil, um país tropical que tem tudo a ver com a peça, as camisas estampadas não tem o mesmo apelo com o público?

Eu discordo. A camisa estampada está nas ruas, mais cool do que nunca, com combinações mais sóbrias até as mais ousadas. Já é uma tendência por aqui também! De Elvis à Bezerra da Silva, a camisa estampada se afirma a cada verão tupiniquim.

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Camisa Yara

Qual a sua visão do mercado nacional?

Há uma progressão nos últimos cinco anos entre marcas “não populares” no mercado, devida a uma maior comunicação e diálogo mais próximo com o público em questão. Sem falar na qualidade dos produtos nacionais, que a cada virada de ano se desponta e inova constantemente, buscando um maior repertório e aprimorando a criatividade.

Você acha que o público brasileiro não está preparado para marcas que priorizam construção e materiais de qualidade?

Partindo do princípio de que o nosso cenário econômico nos obriga a escolher entre comprar uma roupa ou se alimentar, temos aí um problema, não de interesse pelos produtos de marcas independentes, mas sim de sobrevivência.

A desvantagem, ao meu ver, é de ordem econômica, neste caso. Mas há também a dificuldade de se consolidar no mercado, no qual quem produz frequentemente em pequena escala e com foco em uma melhor remuneração aos colaboradores tem, em seu produto final, um custo maior e, assim, um preço menos acessível de mercado.

O panorama do mercado de moda e confecção no Brasil é positivista e se encontra em constante progresso, porém há uma discrepância quando valorizamos algo pelo seu preço e vice-versa.

No caso da Dion Ochner, podemos concluir que o preço aplicado aos nossos produtos é a expressão quantitativa do valor, da qualidade e uma melhor entrega para os nossos colaboradores. Para uma análise ainda mais aprofundada do público em questão, a Dion Ochner realizou, em 2018, uma pesquisa a um grupo de pessoas que aparentemente apresentava as características do perfil de público da marca.

A pesquisa foi um método muito flexível, no qual buscamos coletar dados e informações que possam nos indicar predileções do consumidor. Baseado neste mapa de informações, cheguei a conclusão de que o estado mental é decisivo na experiência de compra, levando as pessoas a analisarem não só o preço de um produto, mas também o grau de necessidade, suas qualidades e atributos.

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Portanto, neste composto de valores é preciso considerar, sobretudo, a procura por marcas já preestabelecidas, com reputação, tradição e outros fatores determinantes na compra de um produto.

Com um mercado em que, cada vez mais marcas locais despontam, encontrar um meio de ganhar mais visibilidade deixou de ser apenas um diferencial, se tornando item de primeira necessidade para que as marcas independentes continuem firmes e fortes.

O fato é que edificamos uma escala de valor das preferências individuais por determinados produtos e é a partir desse valor que fazemos nossas escolhas e construímos também nossa visão crítica em relação ao mundo que vivemos.

Quais os planos da Dion Ochner para o futuro?

A inovação, a qualidade e o bom senso são os desafios frequentes na atualidade, com o objetivo de desenvolver produtos em que cada pequena conquista vale a pena.

Acredito que, atualmente, a maior preocupação se aplica na sensibilidade do produto e na preservação de um estilo com elegância e de fino trato. Temos bons clientes, mas gostaríamos de desenvolver produtos onde nossos consumidores venham adquirir cada vez mais consciência ecológica, equilíbrio e discernimento no vestir.

É muito gratificante e é preciso enfatizar como um conceito reverbera na cultura, visto que uma tendência geralmente implica de algum modo na sociedade, modos de vida ou algum setor corporativo.

Contudo, diante dos fatos, é imprescindível que hajam ações visando a diminuição dos impactos causados pela indústria da moda, uma necessidade incontestável a favor do planeta. Afinal, um mundo mais elegante (preservado) é a garantia e a permanência do mesmo.

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Jaqueta Bomber dupla face Dion Ochner x Horihana

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