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Opinião: Entre Welsoms e Dols
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Opinião: Entre Welsoms e Dols

Vamos começar do início. O canal que fez o vídeo de outfit que viralizou nas redes sociais na semana passada não foi pioneiro no assunto.

A ideia original foi criada pelo londrino Kofi, do canal The Unknown Vlogs. Logo depois de ser aprovada pelos seguidores, outros vídeos semelhantes começaram a surgir em diversos canais relacionados ao assunto no mundo todo.

Então, era questão de tempo até alguém fazer um vídeo nessa pegada por aqui. Porém, infelizmente esse tipo de conteúdo não reflete nenhum pouco a cena do streetwear no Brasil e, por isso, levantei cinco pontos que acho importante levar em consideração quando falamos desse cenário.

1° Conheça o que você usa

Conhecimento é a base para qualquer assunto. Se você é leigo em algo não vai sair falando qualquer coisa sobre, certo? Esse é o pensamento, porém em um meio ditado por quem tem mais views isso não importa tanto.

A falta de conhecimento também nos remete a outro fator importante. Se você não sabe nada sobre a marca, nem pronunciar corretamente o nome e muito menos a história por traz daquilo que está vestindo, isso pode significar de que está usando algo só para estar inserindo em um meio.

O ser humano precisa de aceitação, por isso, precisa pertencer a grupos e isso é normal. No entanto, antes de você parecer, é preciso estar inserido nele e isso não é feito da noite para o dia comprando um ou outro item.

2° Marca não define estilo

Usar marcas hypadas e caras não necessariamente torna alguém estiloso. Esses quesitos são preenchidos com personalidade e são construídos com o tempo. Vão muito além do cartão de crédito, da conta bancária e do dinheiro dos pais.

O streetwear é o meio mais democrático da moda. Não existe um jeito certo de se vestir e o mesmo se aplica para as marcas. Você não precisa ter um BOGO da Supreme, um moletom Shark da BAPE ou uma camiseta com triângulo da Palace para se enquadrar na vertente.

Usar tudo de uma marca só não é dahora, chega ser até meio bizarro e você vai parecer mais um outdoor promovendo a marca do que alguém com estilo próprio.

A máxima que vale é usar algo que você se identifique. Se essas marcas te definem sem problema, mas o que eu acho errado é usar o poder de possuir algo limitado, que atualmente nem é tão limitado assim, para reforçar que você é mais importante dentro do cenário.

3° Influência negativa

Crianças e jovens são os grandes consumidores das redes sociais. Infelizmente essa galera mais nova já cresce achando e vendo que poder aquisitivo relacionado diretamente ao consumo das marcas mais hypadas pode ser algo que a torna diferente.

Temos que fomentar a ideia de que se vestir bem independe do valor ou da marca estampada, senão seremos apenas mais uma cópia dos mercados gringos. Embora lá fora existam pessoas em diferentes níveis sociais, todos figuram no mesmo meio sem problemas, pois lá eles se importam com o que você agrega e não com o valor gasto para se vestir.

Já troquei ideias com diversos gringos sobre o assunto e todos, independente do seu estilo, conversam, questionam e agem normalmente sem se sentirem superiores por conta do que usam.

4° Valorização das marcas nacionais

O Brasil tem muita marca boa fazendo trabalho sério. Pelo status e influência das marcas gringas, muita gente acha tosco, zuado e só sabe criticar o que é nacional.

É fácil fazer essas observações se você não consome o que é feito por aqui. Não estamos em busca de uma Supreme brasileira, mas nosso cenário está sendo construindo aos poucos e é preciso ter paciência.

Os veículos de divulgação também têm uma parte importante nesse papel, não basta escrever sobre marcas de amigos e que saem em revistas de nome, precisamos dar voz às marcas e histórias escondidas nos quatro cantos do nosso brasilzão.

O leitor e consumidor  também precisa abrir sua cabeça, elevar um pouco o nível e fugir dos clichês. Saber um pouco mais sobre o que você veste vai te dar mais segurança e te levar ao seu estilo próprio, mesmo que você seja influenciado por outras pessoas.

5° Streetwear não é necessariamente high fashion

No vídeo em questão vimos diversas marcas high fashion mescladas com itens hypados de marcas de streetwear. Esse caminho entre o streetwear e o high fashion se uniu definitivamente após a parceria da Louis Vuitton com a Supreme, em 2017.

Mas calma, isso não reflete o verdadeiro cenário do streetwear mundial que é feito por diversas marcas alternativas, sendo que muitas não estão no mainstream e revendem seus produtos a preço justo. Não se esqueça que a Supreme não tem as melhores peças do mundo, os produtos da marca cairam bastante de qualidade comparado aos do início. Você paga o nome, o hype.

Marcas originais do estilo nos Estados Unidos, por exemplo, acabam sendo esquecidas pelo público que só é levado pelos mesmos nomes de sempre. Vale lembrar que a Supreme não foi pioneira no estilo, já que nomes como Stussy e FUCT abriram espaço e pavimentaram o caminho para a marca.

Por isso, definir um estilo tão amplo e com diversas marcas de peso, apenas por dois ou três nomes sendo alguns deles de gigantes da moda mundial, é burrice.

Conclusão

Se quisermos que o cenário nacional tenha a nossa cara é necessário começar a enxergar as coisas por outro ângulo. Apoiar as marcas daqui e trazer mais questionamentos sobre a cena, isso só vai fomentar o crescimento do meio.

Esse mercado não é feito apenas por seus influenciadores e veículos, as pessoas que estão inseridas nele também têm grande parte nessa base, que só será solidificada se soubermos diferenciar quem faz as coisas com seriedade e profissionalismo de quem quer apenas aparecer.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos entre Welsoms e Dols.

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