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Opinião: Vamos parar de falar de hype?
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Opinião: Vamos parar de falar de hype?

A palavra que mais venho escutando ultimamente é hype. Muitos abordam apenas o significado da palavra e sua representatividade no mercado atual, porém ninguém explica como o hype surgiu dentro do streetwear.

Para esclarecer essa questão, vamos contar como surgiu e quem criou esse conceito de limitar peças para criar desejo e demanda. Mas, antes é preciso entender de fato o que o termo significa.

O que é hype?

Promover um produto ou ideia de forma intensa e exagerada, fazendo com que as pessoas desejem muito ter tal coisa. Mesmo que não tenha utilidade ou sentido para elas, em muitos casos.

Então, é por isso que, atualmente, muitas marcas lançam coleções e parcerias nesse esquema.

Mas isso não começou agora, pelo contrário, teve início lá nos anos 1990 e, ao longo das décadas, o sentido da palavra foi se transformando.

Quem criou o conceito dentro do streetwear?

A primeira marca de que se tem notícia foi a GOODENOUGH, comandada pelo designer e músico japonês Hiroshi Fujiwara. Em uma viagem para a Califórnia, Fujiwara conheceu a Stussy e ficou fascinado com a pegada alternativa dos caras.

Voltando para o Japão o designer usou a influência da marca americana para criar a própria, a GOODENOUGH. A marca vendia camisetas, moletons e jaquetas com preços considerados altos para uma marca de moda urbana, quando comparados ao mercado dos Estados Unidos. Isso fez com que o nível da GDEH subisse de patamar, se equiparando às grandes marcas fashion da época.

Mas, se engana quem acha que qualquer um poderia comprar os produtos japoneses.

Intencionalmente, Fujiwara produzia pouquíssimas peças que eram lançadas em drops, que na maioria das vezes se esgotavam no mesmo dia do lançamento. Isso criava um efeito circular, já que a cada lançamento a demanda pelas peças da GDEH aumentava, no entanto, o número de produtos disponíveis se mantinha o mesmo. A partir disso, as peças passaram a ser muito mais valorizadas pelos clientes, já que poucos tinham acesso.

Por isso, a GOODENOUGH foi pioneira, dentro do streetwear, em lançar produtos limitados afim de aumentar sua procura e demanda. Sinto te desapontar fanboy de Supreme.

Aos poucos, os americanos entenderam como funcionava esse formato e passaram a replicá-lo. Foi só na virada do século que as coisas começaram ficar maiores e o hype definitivamente se instalou dentro do segmento.

Isso se deu por conta do boom das marcas nos anos 2000, que coincidiu também com a ascensão dos sneakerheads na América. Com isso também veio o lado negativo, afinal todas as marcas passaram a limitar os lançamentos para conseguir o mesmo apelo. Algumas se deram bem com a fórmula, como no caso da Supreme, já outras nem tanto.

Porque o hype de antes não é o mesmo de hoje?

Vou explicar o motivo pelo qual esse termo passou a ser tão usado e acabou perdendo o sentido original nos dias de hoje. Se antes usado para definir coisas limitadas, agora, o hype é usado com frequência por quem quer se afirmar dentro do streetwear. Esse ‘novo conceito’ acabou ganhando força, principalmente por causa dos jovens consumidores e da invasão das marcas high fashion no segmento de moda urbana. No entanto, isso não define quem realmente vive o streetwear.

O uso massivo do hype acabou criando a ilusão de que pertencer ao segmento passe a ser visto como algo exclusivo, voltado para as pessoas que possuem poder aquisitivo maior e que, consequentemente, têm acesso mais fácil a diversos produtos.

Sobre as marcas de luxo, é bem simples. Elas estavam perdendo terreno e viram no mercado ‘alternativo’ a oportunidade de conquistar um público novo, jovem e que está disposto a gastar.

A real é que a valorização do hype deixou o streetwear muito superficial. Na minha opinião, a mensagem está sendo passada de forma errada, pois a moda urbana vai muito além de produtos limitados e vídeos de outfit. E isso só vai mudar quando as pessoas pararem de consumir o conteúdo de maneira rasa e passarem a se aprofundar mais. Isso se quiserem também, porque não vejo esse interesse, mas, sim, uma busca por aparecer e pelo maior valor gasto em seus outfits.

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